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:: Criatório de Adão :: ll=ll

:: Em Um Estado Muito Longe Onde Tudo Pode Acontecer :: ll=ll

B. O. N' 0081/99 - Boletim de Ocorrência Delegacia de Polícia de Cristalândia
Data: 13/08/1999 Local: Estrada do Minério Hora: 03:50h
Ocorrência: Indivíduo encontrado vagando na estrada velha de Auroeste. Branco, cerca de 1, 75 m, aparentando 35 anos. Vestido só de cueca, sem documentos, em estado de choque. Não respondeu ao interrogatorio dos policiais. Encaminhado ao Manicômio
Judiciário Dr. Murilo Rubião. Assinado: sargento Erasmo Lopes, soldado Cornélio Cosme.

O paciente estava estendido em um leito hospitalar, com os braços atados por bandagens ao estrado de metal da cama. Ainda sob efeito dos sedativos. Dois homens de branco curvaram-se para ele.
- Pode nos ouvir? Precisamos conversar. Saber o que aconteceu com você.
Uma expressão de horror desfigurou o rosto do homem. Abriu a boca em um grito inaudível. O médico acionou dois enfermeiros forçudos:
- Segurem ele. Vamos aplicar o soro da verdade.
- Fique calmo - disse o segundo médico. - Você vai relaxar. Conte até dez.
O paciente chegou até "oito" e dormiu. Estava pronto para recordar a sua história.
Meu nome? Adão. Adão Madeira da Silva, caminhoneiro. Meu caminhão? Tá lá em Auroeste, com a carga de melancia. Tive a maldita ideia de passar a noite naquele lugar. Sempre ouvi dizer que Auroeste virou uma cidade-fantasma, depois que o ouro da mina
acabou. Nunca nem passei por lá. Por isso estranhei quando vi aquele posto de gasolina novinho, na estrada para Auroeste. Reabasteci o bruto e tentei puxar um papo com o fretista, um sujeito caolho, com uma cicatriz na testa e um bigodão grosso, comprido.
- Acharam ouro de novo lá em Auroeste, Bigode? Ele fez que não com a cabeça.
- Mas eu encontro hospedagem por lá?
Fez que sim. Não era de muita conversa. Notei que tinha seis dedos em cada mão: todos com o mesmo comprimento. Esquisito. Toquei pra Auroeste. Cortando caminho pela cidade eu ia ganhar tempo e poupar combustível. Também tava cansado de dormir na boléia do
bruto. Queria esticar meu esqueleto em uma cama, pra variar. Parei no restaurante e hotel Estrela de Auroeste. Vi mais de vinte caminhões estacionados no pátio. Quando o garçom me atendeu, tive uma enorme surpresa. Era um irmão gêmeo daquele fretista do
posto de gasolina. Cuspido e escarrado: caolho, bigodudo, com a mesma cara de poucos amigos. Mas como é que os dois podiam ter a mesma cicatriz na testa? E ainda por cima com seis dedos em cada mão?
- Ô companheiro: você é igualzinho ao seu mano, hein? Caolho 2 nem me deu trela. Só anotou meu pedido e sumiu na direção da cozinha. Outro garçom veio trazer o meu prato: outra bruta surpresa. Era o Pedro Isaque de Lima, caminhoneiro como eu, companheiro
de estrada.
- Ué, Pedrão! Mudou de profissão? Sou eu, rapaz, o Adão!
Me olhou como se eu fosse um completo estranho. Quando botou a bandeja na mesa, eu conferi o detalhe: seis dedos em cada mão. Todos do mesmo tamanho. Que diabo era aquilo? Nunca na vida o Pedrão teve seis dedos! Conheço ele desde que servimos o exército.
Então aquele sujeito não podia ser o Pedrão. Era só um...como é que se diz? Quando alguém tem a mesma cara que a gente? Um sósia? É isso: Pedrão 2 era só um sósia do Pedrão verdadeiro, que nunca na vida ia largar o caminhão dele pra virar garçom naquela
porcaria de cidade. Terminei a cerveja e fui reservar um quarto na portaria do hoteleco. Quem me atende no balcão? O caminhoneiro Leôncio Leitão, o velho Fuça de Porco, que todo mundo na estrada conhece.
- Até você, Fuça? Resolveu começar vida nova por aqui?
Mas era um Leôncio 2, porque também me ignorou. Quando me entregou a chave do quarto, vi que tinha seis dedos em cada mão. Que diabo de cidade mais esquisita, onde todo mundo tinha seis dedos! Na hora, achei engraçado. Se eu tivesse mais juízo, tinha
subido no meu caminhão e caído na estrada. Como fazia muito calor, tirei toda a roupa, deitei só de cueca. Pra não perder o costume, botei meu revólver debaixo do travesseiro. Tem muita quadrilha de roubo de carga nessas estradas, e eu me garanto. Logo
ferrei no sono. Acordei sufocando de calor, e não enxerguei nada. Parecia que eu tava debaixo de uma coberta de borracha, mas uma borracha viva, molhada, quente, grudada em mim feito carrapato. Aquilo tava me engolindo. Lutei como um doido, pulei fora da
cama e acendi a luz do quarto. Não sei dizer o que era aquilo em cima da cama. Parecia uma lesma - só que do tamanho de um peixe-boi! O senhor já viu essas criaturas que o mar joga na praia? Aquela tal de água-viva, mole e transparente feito plástico?
Pois aquilo era mais ou menos igual. Uma coisa nojenta, gosmenta, mole como gelatina. Agarrei uma cadeira e banquei o domador de leão no circo: espetei aquele monstro molengo, que abriu uma espécie de boca sem dentes. Eu não quis conversa: puxei meu
revólver e meti chumbo naquele camarujão. O bicho rolou pro chão. Aí eu vi aquele sujeito pelado em cima da cama, coberto de uma gosma branca. Era eu! Um Adão 2, igualzinho a mim. Só que com seis dedos em cada mão. Esse irmão gêmeo que eu nunca tive abriu
os olhos e me encarou como se fosse meu inimigo mortal. O canalha apertou meu pescoço com toda a força de seus dozes dedos. Apavorado, atirei naquele zumbi que tinha roubado meu rosto, meu corpo. Aí começaram a esmurrar a porta do quarto. Só pensei em
fugir. Abri a janela, pulei pro galho do abacateiro, caí no pátio e ia correr pro meu caminhão, mas Pedrão 2, Leôncio 2 e Caolho 2 saíram do hotel e mandaram bala pra cima de mim! Eu atravessei a estrada, me enfiei no mato e continuei correndo, até que a
viatura de polícia me mandou parar. O quê? E eu sei lá o que é aquilo? Só sei que não tô doido. Aquele lesmão é coisa maligna. Aquela coisa tá copiando gente! Quem não vê? Aquela coisa lá de Auroeste, todo mundo com seis dedos na mão! Aquilo é um
criatório de cópia de gente! Boneco de gente! Sem vida! Basta olhar na cara deles. Quando que o Pedrão e o Leôncio iam largar a vida de caminhoneiro para se socar naquele fim de mundo? Onde que o Pedrão e o Leôncio iam cuspir fogo em cima de um irmão da
estrada? Não tem como! A polícia tem que ir lá pra ver que diabo tá acontecendo. Eu só quero minha roupa e meu caminhão de volta. Tá fazendo muito calor. As melancias vão apodrecer. O paciente foi sedado e devolvido à cela. Quando acordou, não sabia onde
estava, nem há quanto tempo. Estava nu debaixo de um camisolão azul. Adão encostou-se às grades, berrou para o corredor:
- Alguém me tire daqui! Que droga de lugar é esse? Preciso entregar meu frete em Maringá! Tenho prazo pra cumprir! Alô! Alguém!
Ouviu passos chegando sem pressa, tilintar de chaves. O enfermeiro parou a porta da cela:
- Calma, camarada. Senão vai tomar um sossega leão. Sabe o que é? Sedativo.
Adão ficou engasgado. Diante dele, um Adão 2 chacoalhava o molho de chaves na mão com seis dedos.


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