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:: O garoto da Guitarra Vermelha :: ll=ll

:: Fanatismo Demais Mata :: ll=ll

Foi um choque brutal para a juventude quando Kevan Ellis foi encontrado morto em uma banheira cheia de água sangrenta. Ele era o garoto da guitarra vermelha, idolatrado em todo o planeta. Mas cortara a própria garganta com uma navalha. Sem deixar nem um
bilhete. Seu ato final deflagrou uma onda de suicídios de adolescente. No mundo inteiro, a morte do garoto doeu como perda de um irmão, um amigo, um filho, um namorado, um príncipe. Em milhões de quartos decorados com pôsteres do ídolo, os fãs soluçavam a
mesma pergunta, em centenas de idiomas diferentes: "Por que?". Afinal, o popstar tinha tudo na vida. A começar por amor. A imprensa internacional apresentou duas respostas. O garoto da guitarra vermelha tinha se envolvido com drogas. E com uma tenebrosa
seita satânica - a Igreja Mundial de Lúcifer. Desembarcando no aeroporto internacional de Washington, a esposa do cônsul lembrou-o que devia telefonar para o filho adolescente em San Francisco.
- Jaiminho não está bem, querido. Anda cada vez mais calado, mais distante da gente. Está deprimidíssimo desde a morte daquele tal Kevan Ellis.
O cônsul Jaime Alexandre Blackwood de Magalhães Falcão teclou seu celular. O filho atendeu com o modo agressivo de hábito:
- Quem é?
- É o papai. Tudo bem, Jaiminho?
- Não me chama de Jaiminho! Já falei que não suporto. Me chama de Alex.
Detestava ter que viver usando o nome emprestado do pai. Era como se não tivesse um nome somente seu. Percebeu a irritação na voz fria de jaime Pai:
- Tudo bem. Sua mãe vai falar com você.
Laura Regina Pena Pestana de Magalhães Falcão derramou carinho na voz:
- Oi, filho, tudo bem? Papai e mamãe precisaram viajar outra vez. Fomos convidados pelo presidente para um jantar de gala na Casa Branca. Você compreende, não é? É o trabalho do papai.
- Grande novidade - Alex resmungou.
Detestava quando a mãe falava naquele to meloso que se usa com criancinhas de colo. Ela perguntou se ele queria alguma coisa de Washington.
- Sim: diga pro mister president que ele é um babacão. E mande ele enfiar aquela droga de saxofone no nariz.
Ouviu a mãe respirar fundo, suspirar baixinho. Sempre elegante e discreta.
- Filho, você já tomou seus semedinhos hoje? Não esqueça, ouviu? Mamãe e papai te amam. Fique bonzinho. Voltamos logo. Um beijo, tchau.
Alex atirou o celular no carpete. Estava em seu estúdio doméstico, sentado na banqueta da bateria profissional, dedilhando sua guitarra vermelha, uma Fender Stratocaster igualzinha à de Kevan Ellis. No pôster pregado na parede, Kevan saltava no ar, a
cabeleira dourada pelas luzes do palco. Como milhares de fãs, Alex também tingira os cabelos de loiro, para ficar mais parecido com seu ídolo. Era até canhoto como ele. Só lhe faltavam os olhos azuis de Kevan.
- Está na hora de tomar meus remedinhos... - ele arremedou o tom de voz da mãe. - As pílulas mágicas do incrível doctor Robert Hyde!
Tirou o vidro do bolso do jeans, enfiou três cápsulas na boca e engoliu-as com um grande trago da lata de cerveja. O celular tocou novamente. Ele ignorou o chamado. Acionou o aparelho de som com o controle remoto. A voz estridente de Kevan Ellis atacou a
primeira faixa do CD. Alex aumentou o volume do amplificador de sua guitarra, tocou e cantou junto com ele:

"Eu quero tocar as estrelas
Eu sou o garoto da guitarra vermelha
Eu quero o amor da garota mais bela
Eu sou o garoto da guitarra vermelha"

Tocava e chorava. A dor em seu coração era um fardo pesado demais para seus dezesseis anos. O celular continuava estrilando. Alex elevou o volume da guitarra ao máximo. Alguém bateu com força na porta. Era Oliver Haggard, o mordomo inglês dos Magalhães
Falcão:
- Senhor Alex? Atenda seu celular, por favor. É miss Yaeko Otomo.
Yaeko, a filha do cônsul japonês, era sua melhor amiga na escola. Talvez a única pessoa no mundo que se importava de fato com ele.
- Oi, Alex. Como você está?
- Igual. Nunca vou me conformar.
- Eu sei. Mas você precisa pensar em outra coisa. Faz quinze dias que você não vai a escola. Você não pode continuar trancado em casa, ouvindo os CDs dele. Agora mesmo você está ouvindo "The Kid with the Red Guitar" pela milionésima vez. E aposto que
estava chorando.
- Não posso fazer nada.
- Olha, vamos sair. Que tal um cinema? Meu pai diz que a gente vai ao cinema pra esquecer da própria existência. Vai te fazer bem. Vamos?
- Não tô a fim.
- Mas eu quero ver você. Posso ir até aí? Vamos conversar.
- Tá legal, pode vir. Também quero te mostrar uma coisa.
Kevan Ellis cantava "O Senhor da Escuridão" quando Yaeko entrou no estúdio. Alex fez uma pausa no som, ofereceu o rosto ao beijo da garota. Nem se lembrou de dizer que ela estava linda. Mas Yaeko notou o curativo no pulso direito dele:
- Você se machucou, Alex?
- Um corte de nada. Só umas gotinhas de sangue - ele sorriu, estranho.
O aposento cheirava a cigarro. As cortinas negras estavam fechadas. Sobre o tampo do piano, em um cinzeiro de prata, ardia uma grossa vela negra.
- Que tal abrir as janelas pra arejar um pouco? - ela sugeriu.
Sem responder, ele pegou uma folha de papel debaixo do cinzeiro da vela negra. Exibiu-a com ar de orgulho. Yaeko viu a foto de Kevan Ellis colada no alto da página. E ao lado, a carranca medonha do demônio: era o Senhor da Escuridão, imagem recortada
do encarte do último CD de Kevan. O manuscrito era uma invocação ao poder das trevas:

PACTO COM O SENHOR DA ESCURIDÃO

Ô senhor das trevas que tudo pode peço que me conceda o espírito e o talento de Kvan Ellis para que ele continue vivendo em mim prometo amá-lo, protejé-lo e servi-lô por toda a minha vida, juro cumprir este pacto com todo amor do meu coração, ouvi minha
minha súplica, ô senhor das trevas que tudo pode, faz Kevan Ellis viver para sempre em mim, assino este pacto com meu sangue.
Alex

Yaeko estremeceu. O texto e a assinatura tinham sido traçados com sangue. A idolatria de Alex por Kevan Ellis tinha ido longe demais.
- De onde você tirou essa idéia maluca, Alex?
- Da letra de O Senhor da Escuridão. Ensina direitinho como fazer o ritual.
- Seus pais estão sabendo disto?
- Claro que não. Eles não entendem nada.
- Você não pode estar falando sério. A gente não deve brincar com essas coisas!
- Quem disse que eu estou brincando? - Ele entregou uma caneta a ela: - Assine seu nome aí debaixo do meu. Preciso de uma testemunha.
- Não, Alex! Isso é loucura!
Ele apertou o pulso da garota com violência:
- Assine logo, sua cretina! Você não diz que é minha amiga?
Chocada, Yaeko obedeceu. Alex recolocou o manuscrito sob o pires da vela negra. Religou o som, empunhou a guitarra e detonou o solo feroz da introdução de O Senhor da Escuridão. Totalmente desinteressado da presença dela. Yaeko compreendeu que Alex estava
fora de seu juízo normal. Fugiu chorando daquele quarto escuro. Voltando para casa, conduzida pelo motorista dos Otomo, ela pensava em como poderia ajudar Alex. Se ele ao menos percebesse o quanto ela o amava!
O rugido da guitarra ressoava através da mansão, em um solo violento, initerrupto, ensurdecedor. Impossível dormir com aquele pandemônio. Revirando-se na cama, o polido Oliver rosnou uma praga:
- Maldito punk! Vai tocar até quando, seu bastardo?
Tinha que tomar uma providência. Ligou para o cônsul em Washington:
- Perdão por incomodá-lo a esta hora, senhor. É o jovem Alex. Está trancado no estúdio, tocando guitarra há horas. O senhor está ouvindo?
A guitarra jorrava uma muralha de som: bombardeio aéreo, rajadas de metralhadora, turbinas de jato. Magalhães Falcão berrou instruções:
- Ligue imediatamente para o doutor Hyde! Diga que Jaiminho precisa de ajuda! Que ele mande uma ambulância! Vamos pegar o primeiro avião de volta.
Oliver telefonou para o psiquiatra, sentou-se e esperou. A guitarra trovejava, furiosa. Aquela ia ser uma noite dos diabos.
Já era manhã quando o motorista do cônsul estacionou o Rolls-Royce no pátio da mansão. Uma ambulância aguardava, as portas abertas. Dois enfermeiros deixaram a casa, carregando uma padiola com um corpo coberto por um lençol branco, manchado de sangue.
Laura Regina saltou do carro, correu para eles. Doutor Robert impediu-a de erguer o lençol:
- Não olhe, mrs. Falcão! Não há mais nada a fazer. Venha comigo, por favor.
Levou-a para dentro da casa, deu-lhe um sedativo. Laura Regina afundou em uma poltrona, o olhar vazio. O cônsul entrou pouco depois. Trêmulo, abalado, em estado de choque. Doutor Robert socorreu-o com seus comprimidos.
- É uma tragédia, senhor cônsul. Infelizmente, chegamos tarde.
Como sempre, os jornais sensacionalistas chegaram a tempo. Lançaram-se sobre o jovem cadáver como urubus na carniça:

GAROTO RICO IMITA MORTE DE KEVAN ELLIS

Filho De Diplomata Brasileiro Cortou A Garganta
Sequer pouparam os pais daquela foto horripilante do filho morto, um sorriso tétrico no rosto, um talho vermelho na garganta. Porque a desgraça dos ricos e felizes vende muito mais jornal. Os Magalhães Falcão voaram para o Rio de Janeiro, onde Alex seria
enterrado. Uma semana depois, o cônsul voltou sozinho para San Francisco. Acendeu uma pira funerária no pátio da mansão e queimou a guitarra, as roupas, os CDs, videos, pôsteres e revistas de rock do filho. Trancou-se na biblioteca e ficou a noite inteira
ouvindo a música celestial de Johann Sebastian Bach. Às sete horas da manhã, Oliver ...


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